O tempo que Harry Kane não perdeu
Harry Kane beija a Bola de Ouro, reconhecimento de sua trajetória no futebol. Foto: Divulgação/Ballon d'Or.
Nunca gostei muito da Bola de Ouro.
É uma premiação esquisita. Além da subjetividade inevitável da eleição, considero um tanto de mau gosto premiar individualmente alguém por praticar um esporte coletivo. Ainda mais quando os atacantes já largam em clara vantagem, já que são eles que fazem os gols, aparecem nas fotos e costumam receber os abraços mais demorados.
Não gosto.
Bom, não é exatamente que eu não goste, vai.
Como qualquer apaixonado por futebol, acho um barato percorrer as listas de vencedores de outras épocas, descobrir os nomes que antecederam meu nascimento, reencontrar aqueles que acompanhei pela televisão e dos quais já não me lembro com tanta clareza. Há algo de muito gostoso nesse exercício de memória, é verdade.
É que o futebol, antes de ser uma coleção de números, é uma coleção de histórias.
Ninguém se apaixona por um clube porque examinou cuidadosamente seu retrospecto de títulos e concluiu que aquela seria a escolha mais racional. A criança se encanta porque um dia foi ao estádio e encontrou quarenta mil pessoas vestidas da mesma cor, cantando as mesmas músicas, abraçando desconhecidos por causa da bola que atravessou uma linha branca.
Ou porque, sei lá, ligou a televisão num domingo à tarde e viu Thierry Henry girar sobre o próprio corpo e acertar um voleio de fora da área contra o Manchester United. Barthez, coitado, não tinha muito o que fazer. Naquele instante, talvez sem compreender direito o que estava acontecendo, a criança descobriu que gostava de vermelho.
São os personagens que nos conquistam. As histórias que contamos e recontamos, até que passem a fazer parte da nossa própria biografia.
Pensando assim, talvez a Bola de Ouro tenha alguma utilidade. Não necessariamente a de determinar, com autoridade científica, quem foi o melhor jogador do planeta, mas a de conservar alguma coisa da história de uma temporada. Daqui a trinta anos, por exemplo, alguém encontrará aquela lista e se perguntará quem eram aquelas pessoas, como jogavam, por que foram importantes.
Pois bem.
Em 2026, no lugar mais alto dessa lista, está Harry Kane.
E não consigo pensar em alguém que merecesse mais estar ali.

Harry Edward Kane nasceu em Londres, em julho de 1993, e cresceu em Chingford, onde aprendeu a jogar futebol antes de ter idade suficiente para compreender que poderia viver disso.
Passou pelo Ridgeway Rovers, entrou nas categorias de base do Arsenal e foi dispensado ainda menino. Não parecia suficientemente rápido, explosivo ou atlético. Anos depois, Liam Brady reconheceria que o clube havia cometido um erro de avaliação. Uma maneira bastante educada de descrever o que aconteceu.
Kane voltou ao futebol de bairro, passou pelo Watford e, em 2004, aos onze anos, chegou ao Tottenham. Ficaria por dezenove.
Durante quase duas décadas, aquele garoto atravessou todas as etapas possíveis da formação de um jogador. Cresceu, mudou de posição, ganhou corpo, aprendeu a finalizar, a passar, a proteger a bola, a compreender espaços. Foi emprestado ao Leyton Orient, ao Millwall, ao Norwich e ao Leicester. Voltou. Esperou. Convenceu.
Não havia, à sua espera, uma carreira cuidadosamente desenhada para produzir o próximo grande fenômeno do futebol inglês.
Havia trabalho.
E havia, que fique muito claro, um talento único. Porque seria muito conveniente transformar Harry Kane numa dessas histórias edificantes sobre o sujeito limitado que, à força de dedicação, conseguiu competir com os naturalmente brilhantes. Mas não é disso que estamos falando.
Kane é um gênio da finalização. Ponto. Domina com uma precisão absurda, chuta com os dois pés, compreende o posicionamento dos defensores e consegue encontrar o gol em situações nas quais outros atacantes ainda estariam procurando a bola.
Só que o impressionante, para o cronista e espero que para o leitor também, é como ele nunca pareceu satisfeito em ser apenas isso.
No Tottenham, tornou-se o maior artilheiro da história do clube, com 280 gols. Mas os gols, por mais numerosos que fossem, contam apenas uma parte da história.
Lembro muito bem que durante a passagem de José Mourinho, para citar um só exemplo, Kane passou a recuar com frequência para organizar o jogo, atraindo marcadores e encontrando Son Heung-min em profundidade. Os dois construíram uma das parcerias mais produtivas que a Premier League conheceu. Son podia atacar os espaços porque Kane os enxergava antes de quase todo mundo.
Um centroavante que marcava gols como centroavante e lançava como armador.
E que, se fosse necessário, voltava para defender.
Era uma maneira bastante particular de compreender o próprio talento: jamais como uma licença para fazer menos pelos companheiros, mas como a possibilidade de fazer mais.

Durante anos, disseram que Harry Kane precisava deixar o Tottenham.
Precisava sair para ganhar títulos, disputar as grandes decisões, alcançar o reconhecimento que merecia. Como se o futebol praticado fora de meia dúzia de clubes privilegiados fosse uma espécie de atividade preparatória, um estágio obrigatório antes da carreira de verdade.
Sinceramente? É uma das ideias mais desagradáveis que se naturalizaram no esporte.
Aprendemos a avaliar jogadores abrindo planilhas. Quantos gols? Quantas assistências? Quantas taças? Jogou onde? Ganhou o quê?
Naturalmente, números importam. Títulos também. O problema começa quando passam a substituir aquilo que deveria ajudar a compreender.
E o leitor talvez me permita uma indiscrição: há quem acompanhe futebol com tanta preocupação em contabilizar estatísticas que suspeito não encontrar muito tempo para gostar do jogo.
Kane ficou no Tottenham durante os bons e os maus momentos. Jogou em equipes excelentes, disputando até final de Champions League, e em outras bem menos recomendáveis. Fez gols, criou jogadas, assumiu responsabilidades, tornou-se capitão da Inglaterra e um dos melhores atacantes do mundo.
Não ganhou títulos pelo Tottenham.
Mas foi ali que construiu uma das mais formidáveis carreiras que o futebol inglês conheceu.
Não pretendo romantizar a ausência de conquistas, tampouco sugerir que permanecer no clube fosse um sacrifício moralmente superior ao desejo de procurar novos desafios. Kane tinha ambições legítimas, e foi atrás delas quando decidiu se transferir para o Bayern de Munique, em agosto de 2023.
O que me incomoda é a facilidade com que se diz que ele perdeu tempo.
Como assim perdeu tempo?
Foi nos Spurs que aprendeu a ser o jogador que é. Foi ali que teve seu caráter moldado, desenvolveu sua técnica, sua inteligência, sua liderança, sua capacidade de se adaptar às necessidades dos companheiros. Foi ali que construiu uma relação com o futebol que, tantos anos depois, continua sendo a característica mais interessante de seu jogo.
O Bayern recebeu um jogador extraordinário.
Não precisou inventá-lo.

Na temporada 2025/26, Harry Kane marcou 73 gols.
Setenta e três.
É um número que deveria encerrar qualquer discussão sobre sua capacidade como atacante. Mas, curiosamente, quando chegou a hora de explicar por que merecia a Bola de Ouro, muita gente preferiu falar de outras coisas.
De um carrinho contra o Borussia Dortmund, quando voltou para interromper o avanço de Fábio Silva. De um tiro de meta que cobrou ao lado do próprio goleiro, contra o Arsenal, numa partida de Champions League.
Um carrinho e um tiro de meta.
O sujeito marcou 73 gols e estamos aqui conversando sobre um tiro de meta.
Acho maravilhoso.
Não porque suas finalizações tenham perdido importância, mas porque há algo de sublime num jogador capaz de produzir tantos gols sem se considerar dispensado das outras responsabilidades.
No Bayern de Munique, Kane passou a atuar cada vez mais longe da área. Recuou para organizar a construção, ofereceu linhas de passe, ajudou a recuperar a bola, participou de movimentos que não terminavam necessariamente com uma assistência registrada em seu nome. Foram oito assistências na temporada, número modesto para alguém tão envolvido na criação, mas que diz pouco sobre a extensão de sua influência.
Se o time precisa de um armador, Kane arma. Se precisa de alguém para proteger a entrada da área, ele aparece por lá. Se o lateral está pressionado, oferece ajuda. Se é necessário disputar uma bola no meio-campo, disputa.
E depois volta para fazer o gol.
Além de contribuir incansavelmente sem a bola, o todocampista também entrega os gols de um atacante fora de série. O único paralelo que consigo traçar para essa relação do atleta com o esporte é com o Pernalonga naquele episódio de beisebol, lembra?
Enfim, talvez seja essa a grande ironia da Bola de Ouro de 2026: um prêmio que tantas vezes parece reduzir o futebol ao brilho individual encontrou seu vencedor num jogador cuja maior virtude é participar do jogo inteiro.

Na cerimônia, Kane não sabia muito bem onde colocar as mãos.
Começou com elas nos bolsos da calça, ajeitou os botões do paletó, puxou as mangas, procurou novamente os bolsos, pareceu perceber que estava se mexendo demais e voltou aos botões, que já estavam perfeitamente ajustados.
Um homem de 33 anos, acostumado a jogar diante de mais de setenta mil pessoas, aparentemente derrotado pela tarefa de permanecer parado diante de um microfone.
Uma graça.
Não demorou a falar dos companheiros. Agradeceu aos jogadores do Bayern, à comissão técnica, ao trabalho diário que o havia levado a melhorar mesmo depois de tantos anos de carreira. Lembrou da seleção inglesa, das conquistas que ainda pretendia alcançar, das pessoas que o acompanharam pelo caminho.
E então falou do Tottenham.
Era óbvio.
Era óbvio o seu carinho, todo especial, na maneira como falava do clube onde havia passado quase toda a vida. O menino de onze anos estava ali, de alguma maneira, ao lado do homem que acabara de receber a Bola de Ouro.
Não precisava mais provar que era bom o suficiente para permanecer na categoria de base. Não precisava mais convencer treinadores de que merecia uma oportunidade, nem esperar por empréstimos que lhe permitissem jogar alguns minutos de futebol profissional.
Era o melhor jogador do mundo.
E queria agradecer ao Tottenham.
Até que puxa uma lista. E é aqui que chegamos ao momento mais revelador do discurso, ao menos para este que vos escreve.
Kane havia preparado os nomes dos treinadores que participaram de sua formação e não queria esquecer ninguém. Uma precaução compreensível para alguém que estava recebendo o prêmio mais importante da carreira, embora eu suspeite que poucos vencedores se preocupem tanto com a possibilidade de omitir um antigo treinador.
Então agradeceu a Kenny Jackett.
Kenny Jackett.
Uau.
Do Millwall.
Sim, o Millwall.
De repente, estávamos de volta a 2012, aos empréstimos, aos estádios menores, ao garoto que ainda não havia se firmado no Tottenham e que, diferentemente de Kylian Mbappé e Lamine Yamal — segundo e terceiro colocados naquela noite —, não cresceu ouvindo que um dia seria o melhor do mundo, mas precisava aproveitar cada oportunidade porque ninguém podia garantir quando apareceria a próxima.
E ali estava Harry Kane, no ponto mais alto do futebol mundial, lembrando do treinador que o havia recebido durante alguns meses no Millwall.
Jackett havia morrido quatro meses antes.
Há algo de muito bonito nessa lembrança. Não porque Jackett tenha sido o responsável secreto por transformar Kane no Furacão que viria a ser. Nem porque o atacante estivesse tentando oferecer uma lição de humildade ao público.
É mais simples do que isso.
Kane parece compreender que ninguém chega sozinho a lugar nenhum.
Não sei se Harry Kane é o melhor jogador do mundo.
Digo, foi eleito, naturalmente. E considero sua vitória merecida. Mas continuo desconfiando da possibilidade de determinar com tanta precisão quem foi o melhor indivíduo num esporte que depende, a cada segundo, de outros vinte e um em campo.
A Bola de Ouro ainda me desce meio quadrada, entende?
Só que este ano ela me proporcionou uma alegria particular.
Porque Harry Kane a venceu não “apenas” fazendo gols como poucos jogadores na história, mas também fazendo tantas outras coisas que não costumam aparecer nas fotografias, nos melhores momentos ou nas planilhas.
Venceu sem precisar transformar a própria candidatura numa campanha.
Sem abandonar a discrição e a humildade que o acompanhou durante toda a carreira. E, quando finalmente recebeu o troféu, pareceu mais interessado em lembrar das pessoas que o ajudaram a chegar ali do que em explicar por que merecia estar naquele palco.
Há quem diga que demorou demais.
Que deveria ter deixado o Tottenham antes, procurado clubes mais poderosos, acumulado títulos enquanto ainda era jovem. Que perdeu anos preciosos de uma carreira excepcional.
Eu não consigo enxergar dessa maneira.
Harry Kane não passou dezenove anos esperando a vida começar. Estava vivendo. Aprendendo a jogar, a competir, a vencer e a perder. Fazendo amigos, formando parcerias, conhecendo treinadores, construindo uma história com o clube que amava. Que ama.
E levou tudo isso com ele para Munique.
Até mesmo Kenny Jackett.
Talvez seja por isso que tenha gostado tanto de vê-lo com a Bola de Ouro nas mãos, embora ele próprio parecesse não saber muito bem o que fazer com elas.
Por uma noite, o futebol resolveu premiar individualmente um homem que passou a carreira inteira se recusando a jogá-lo sozinho.
