A guerra pelas categorias de base entre os gigantes da Premier League

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JJ Gabriel é uma das principais promessas das categorias de base do Manchester United (Foto: Divulgação/Manchester United)

Durante anos, existiu uma espécie de acordo de cavalheiros entre as maiores categorias de base da Inglaterra. Chelsea, Arsenal, Liverpool, Manchester City, Manchester United e Tottenham disputavam os melhores jovens do país, mas havia certo cuidado em não transformar as academias dos rivais em território de recrutamento. Nunca foi uma regra escrita — e sempre houve exceções —, mas o equilíbrio funcionou por tempo suficiente para parecer parte natural do sistema. Até deixar de funcionar. Hoje, praticamente nenhum jogador está fora de alcance, e uma transferência em particular ajuda a explicar por quê.

Rio Ngumoha tinha 16 anos quando trocou o Chelsea pelo Liverpool, em 2024. Sem acordo entre os clubes, um tribunal estabeleceu posteriormente uma compensação inicial de £2,8 milhões, com possibilidade de chegar a £6,8 milhões. Era uma quantia considerável para um jogador daquela idade e poderia ter funcionado como aviso aos interessados em repetir a operação. O desenvolvimento de Ngumoha produziu a conclusão oposta: se um adolescente adquirido por alguns milhões pode rapidamente passar a valer várias vezes isso, o risco deixa de parecer tão grande.

Neste verão, Manchester United buscou David Eze e Karim Cassim no City; o City levou Mishel Nduka do Arsenal; o Arsenal contratou Elijah Upson do Tottenham e Vincent Joseph do Liverpool; e o Tottenham tirou George Jobling do Chelsea. A trégua acabou porque os grandes descobriram quase ao mesmo tempo que também havia dinheiro a ser feito no quintal do vizinho.

O novo mercado das categorias de base

A saída do Reino Unido da União Europeia, processo conhecido como Brexit, também ajuda a explicar essa mudança. Até então, os clubes ingleses podiam aproveitar uma exceção que permitia a transferência de jogadores com passaporte da União Europeia entre os 16 e os 18 anos. Quando o Brexit passou a produzir efeitos sobre essas regras, em 2021, o mercado internacional disponível aos clubes ingleses nessa faixa etária encolheu cerca de 95%.

Se antes Chelsea ou Manchester City podiam procurar o próximo grande talento de 16 anos na França, Holanda ou Espanha, passaram a encontrá-lo principalmente nas categorias de base da própria Inglaterra. Ao mesmo tempo, cresceu o número de clubes com academias classificadas no nível mais alto do sistema de formação inglês: eram 20 em 2012-13 e são 31 em 2026-27. Mais clubes passaram, portanto, a ter estrutura e recursos para disputar os melhores jovens do país, justamente quando o mercado disponível para encontrá-los ficou menor.

Há também uma razão contábil. A venda de jogadores formados no clube ganhou enorme importância com as regras de sustentabilidade financeira da Premier League porque esses atletas chegam aos balanços sem uma taxa de transferência original a ser amortizada. Isso ajudou a transformar as categorias de base em parte da estratégia financeira dos clubes: há valor em encontrar cedo quem poderá ser vendido depois. É a lógica que permite ao Manchester City gastar £12,5 milhões em Jeremy Monga, de 17 anos, ou que faz clubes investirem centenas de milhares em jogadores que ainda estão vários anos distantes do futebol profissional. A academia continua formando futebolistas, mas também passou a produzir ativos.

Uma corrida que começa cada vez mais cedo

Mishel Nduka em campo pelas categorias de base do Arsenal
Mishel Nduka deixou as categorias de base do Arsenal para se transferir ao Manchester City em 2026 (Foto: David Price/Arsenal)

Nas categorias de base, porém, essa corrida começa muito antes dos 16. Academias profissionais observam crianças a partir dos cinco anos e podem registrá-las oficialmente no sub-9. Desde 2011, esse universo é organizado pelo Elite Player Performance Plan, sistema que estabelece padrões para a formação de jovens e classifica as academias inglesas de acordo com sua estrutura e nível de investimento.

O EPPP também prevê compensações quando um jogador troca uma base por outra. No nível mais alto, a categoria 1, os valores básicos vão de £5 mil no sub-9 a £80 mil por ano de formação entre sub-14 e sub-16. A lógica era permitir que um talento encontrasse um ambiente melhor para se desenvolver sem apagar o investimento de quem o formou. O sistema, porém, não foi pensado para uma circulação constante de talentos entre as categorias de base mais ricas do país.

É aí que aparecem suas distorções. Clubes menores passaram a oferecer bolsas antecipadamente e até acelerar estreias profissionais como maneira de aumentar o valor de seus jogadores numa eventual disputa por compensação. Famílias, por sua vez, conhecem muito melhor as possibilidades disponíveis e têm mais poder para questionar o caminho oferecido por uma academia.

Essa maior liberdade de escolha não é necessariamente ruim. Um garoto sem perspectiva no Chelsea pode encontrar no Liverpool exatamente o ambiente de que precisava; outro pode simplesmente perceber que permanecer onde está não é a melhor decisão para sua carreira. O problema começa quando um sistema criado para proteger o desenvolvimento passa a produzir incentivos para que decisões sobre crianças sejam tratadas cada vez mais cedo como decisões de mercado.

O problema não é Ngumoha

Rio Ngumoha em campo com a camisa do Liverpool
Rio Ngumoha deixou o Chelsea pelo Liverpool em 2024 e se tornou um dos principais exemplos da nova disputa por jovens talentos entre os gigantes ingleses (Foto: Divulgação/Liverpool)

A Premier League tenta estabelecer barreiras. Mudanças entre categorias de base passam por um processo de investigação destinado a identificar aliciamento, contatos prévios e incentivos financeiros indevidos, enquanto clubes e responsáveis precisam declarar que a transferência respeitou as regras. Ainda assim, nenhuma regulamentação elimina o incentivo que está na origem da corrida.

Para um gigante inglês, perder um talento excepcional aos 15 anos pode significar abrir mão de um jogador de dezenas de milhões; para quem compra, pagar £1 milhão ou £2 milhões deixa de parecer extravagância se basta que aquele adolescente alcance o nível da Championship para que a operação possa gerar retorno. É um negócio dentro do próprio negócio. Quanto mais clubes chegam a essa conclusão, mais difícil se torna pedir que alguém fique parado.

Ngumoha, portanto, não é o problema. Seu caso apenas tornou evidente uma conta que os clubes talvez demorassem mais tempo para fazer. A Premier League construiu um dos sistemas de categorias de base mais ricos e sofisticados do futebol, deu às famílias maior liberdade para escolher onde seus filhos devem se desenvolver e criou mecanismos para compensar quem investe nesse processo. Agora precisa lidar com uma consequência do próprio sucesso: os melhores adolescentes ingleses se tornaram valiosos demais para que os clubes mais ricos simplesmente concordem em deixá-los onde estão. A antiga trégua dependia de todos aceitarem que algumas fronteiras não deveriam ser atravessadas. Bastou um deles perceber quanto havia do outro lado para que elas começassem a desaparecer.

Davi Mendonça

Jornalista esportivo, com formação também em Gestão Esportiva, escrevo sobre o Chelsea e as histórias que cabem dentro de um jogo de futebol. Me interesso pelos personagens, pela memória e pelos pequenos detalhes que ajudam a contar um clube para além do placar. Acompanho os Blues dentro e fora das quatro linhas.

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