Todd Boehly vende participação no Chelsea e encerra ciclo de quatro anos
Todd Boehly encerrou seu ciclo de quatro anos no Chelsea após vender sua participação no clube (FOTO: Divulgação/Chelsea)
Todd Boehly não é mais um dos donos do Chelsea. A Clearlake Capital comprou as participações do empresário e de Mark Walter e assumiu o controle total do clube, encerrando uma parceria iniciada em 2022, na compra que marcou o fim da era Roman Abramovich. Boehly também deixa a presidência depois de quatro anos no cargo.
Boehly e Walter possuíam 12,8% das ações cada e a venda das duas participações foi fechada por £950 milhões. A operação atribui ao Chelsea um valor empresarial de £5 bilhões. Hansjörg Wyss, outro integrante do consórcio formado em 2022, decidiu permanecer como acionista minoritário. Em comunicado, o clube afirmou que a mudança não provocará alterações nas operações diárias, na liderança ou na estratégia.
Boehly foi o rosto da mudança no Chelsea
A saída encerra uma passagem que começou com Boehly ocupando um espaço muito maior do que o de um presidente. Quando o consórcio formado por ele e pela Clearlake assumiu o Chelsea, em maio de 2022, o americano rapidamente se tornou o rosto da nova era. A negociação aconteceu em circunstâncias excepcionais: Roman Abramovich havia sido sancionado pelo governo britânico após a invasão russa da Ucrânia e o clube funcionava sob uma licença especial enquanto procurava um novo proprietário.
A proposta escolhida previa £2,5 bilhões para a compra das ações do Chelsea e outros £1,75 bilhão em compromissos de investimento no clube. Embora Boehly aparecesse à frente do consórcio e assumisse a presidência, a Clearlake já era a principal acionista. O acordo, no entanto, estabelecia controle conjunto e igualdade de governança entre as partes.
Pouco depois da compra, as saídas de nomes importantes da antiga administração, como Marina Granovskaia e Petr Cech, abriram um vazio na estrutura esportiva. Boehly assumiu temporariamente a função de diretor esportivo e mergulhou na primeira janela de transferências da nova gestão. Participou diretamente de negociações, liderou a contratação de Raheem Sterling e chegou a se interessar pela possibilidade de levar Cristiano Ronaldo para Stamford Bridge, ideia que encontrou resistência de Thomas Tuchel.

Foi um período em que Boehly parecia disposto não apenas a aprender o funcionamento do futebol europeu, mas também a questioná-lo. Em setembro de 2022, sugeriu que a Premier League poderia criar uma partida entre seleções do norte e do sul da Inglaterra, inspirada nos jogos de estrelas das ligas americanas. A ideia provocou uma resposta irônica de Jürgen Klopp e se tornou um dos episódios que ajudaram a construir a imagem de Boehly como um proprietário americano tentando transportar para o futebol conceitos comuns nos esportes dos Estados Unidos.
O próprio Boehly reconheceria mais tarde o improviso daqueles primeiros meses. Em 2026, ao recordar o período como diretor esportivo interino, admitiu que assumiu a função sem saber exatamente o que fazia um bom jogador. A estrutura mudou rapidamente. Paul Winstanley, Laurence Stewart e outros executivos chegaram para formar uma nova direção esportiva e Boehly deixou a função interina em janeiro de 2023. Aos poucos, sua presença nas decisões também diminuiu.
A relação com a Clearlake se desgasta

A Clearlake, que desde o início era a acionista majoritária, passou a exercer maior controle sobre a estratégia do Chelsea, principalmente através de seu cofundador Behdad Eghbali. Boehly continuava presidente, frequentava Stamford Bridge e mantinha poder formal dentro da estrutura societária, mas já não tinha o mesmo protagonismo dos primeiros meses.
A relação entre os dois lados também se desgastou. A saída de Mauricio Pochettino, em 2024, tornou-se um dos principais pontos de tensão, enquanto o futuro de Stamford Bridge também esteve entre as questões que provocaram divergências. Naquele mesmo ano, Boehly e Clearlake começaram a estudar maneiras de encerrar a parceria. O americano chegou a procurar possíveis investidores para tentar comprar a participação da Clearlake, mas o grupo nunca demonstrou interesse em vender.
Havia ainda um obstáculo contratual para uma separação. Pelo acordo estabelecido na compra do Chelsea, as partes não poderiam simplesmente vender suas ações para investidores externos sem a autorização da outra antes de 2032. Com a Clearlake determinada a permanecer, uma saída de Boehly para o próprio sócio tornou-se um dos caminhos mais naturais para desfazer uma relação que já não funcionava como no início.
Dois anos depois, foi exatamente o que aconteceu. A transação elimina uma divisão que existia no topo do Chelsea sem representar, necessariamente, uma mudança em quem conduzia o clube no cotidiano. A Clearlake e Eghbali já estavam à frente das principais decisões esportivas e administrativas; agora, a estrutura acionária passa a refletir com mais clareza essa realidade.
Boehly sai depois dos primeiros títulos da nova era
Boehly deixa o Chelsea, porém, em um momento bastante diferente daquele em que sua imagem passou a representar os problemas dos primeiros anos da nova gestão. Já mais distante das decisões do dia a dia, viu o clube conquistar a Conference League e a Copa do Mundo de Clubes em 2025.
A conquista do Mundial produziu uma das últimas grandes imagens de Boehly como presidente. Depois da vitória sobre o Paris Saint-Germain na final, no MetLife Stadium, ele participou da cerimônia de premiação ao lado do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Pouco mais de um ano depois, sua relação com o Chelsea chegaria ao fim.

“Foi uma honra servir como presidente do Chelsea”, afirmou Boehly na despedida. O empresário agradeceu aos profissionais e torcedores do clube, disse valorizar a parceria construída com a Clearlake e afirmou acreditar que o Chelsea está bem posicionado para continuar tendo sucesso sob a liderança do grupo.
Para a Clearlake, a venda encerra uma disputa interna que acompanhou parte dos últimos quatro anos e concentra definitivamente o controle do clube nas mãos de quem já vinha conduzindo suas principais decisões. Para Boehly, termina uma passagem que começou no centro de praticamente tudo no Chelsea e termina com o empresário já distante do comando cotidiano que um dia assumiu pessoalmente.
