Jordan Henderson, antes que chegue o inverno

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Jordan Henderson, de 36 anos, em ação pelo Chelsea na Premier League. (Foto: Ryan Pierse/Getty Images)

Tenho um carinho todo especial pelos jogadores que conseguem acrescentar belas linhas à própria biografia quando já vivem o inverno da carreira. Há algo de comovente em observar um atleta que, depois de tantos anos, ainda encontra maneiras de ser relevante. O corpo já não responde como antes, os companheiros são mais jovens, o futebol muda um tantão, e mesmo assim ele permanece. Não por uma concessão à própria história, mas porque ainda tem algo a oferecer ao presente.

Assim enxerguei Jordan Henderson quando foi anunciado pelo Chelsea.

E acho que cometi uma injustiça.

Muito antes de me explicar ao leitor, preciso falar sobre uma distinção que considero importante: existe uma diferença entre ser extraordinário e ser extraordinariamente bom naquilo que se faz. Henderson construiu uma carreira inteira explorando essa diferença.

Nunca foi um craque no sentido mais convencional da palavra. Tampouco o jogador mais aplaudido de seus grandes times. Há outros dos quais esperamos gols, dribles, arrancadas e momentos de inspiração. De Henderson, espero que esteja onde precisa estar. Que ofereça uma linha de passe para sair de pressão, feche um espaço antes que alguém perceba o perigo, corra para consertar um problema que nem foi ele quem criou. Espero que converse, organize, cobre, encoraje. Que trabalhe.

E ele costuma atender a essas expectativas com uma regularidade quase ofensiva. É impressionante como o bife nunca está duro pro sujeito, o arroz nunca está salgado demais. Henderson chega, encontra o que há para fazer e faz.

O Liverpool de Jürgen Klopp talvez seja o melhor exemplo do valor dessas virtudes.

Jordan Henderson abraça Jürgen Klopp, técnico do Liverpool, em um momento de comemoração após uma partida.
Jordan Henderson e Jürgen Klopp se abraçam durante os anos de sucesso da dupla no Liverpool. (Foto: Liverpool/Divulgação)

Lembro daquele time capaz de marcar quatro gols em qualquer adversário, mas que, com facilidade semelhante, também parecia disposto a conceder três. Era um futebol irresistível, talvez irresponsável, sustentado por uma intensidade espantosa. Com a chegada de Alisson, a consolidação de Van Dijk, a entrada de Fabinho e o amadurecimento coletivo, o Liverpool encontrou o equilíbrio que lhe faltava. Continuou agressivo, mas aprendeu a controlar jogos.

Henderson esteve no centro dessa transformação. Não como protagonista solitário, é óbvio. Seria quase uma blasfêmia falar dos Mentality Monsters sem prestar as devidas reverências a Mané, Firmino e Salah. Mas o capitão reunia qualidades que permitiam ao sistema funcionar, sobretudo a capacidade de compreender que, às vezes, a melhor contribuição acontece longe da bola.

Pensem em Trent Alexander-Arnold.

Durante os melhores anos daquele Liverpool, Trent teve liberdade para se tornar muito mais do que um lateral. Subia com frequência, ocupava o meio como um armador e distribuía passes que… sinceramente? Pareciam atravessar o campo por caminhos que só ele conhecia.

Mas alguém precisava cuidar da casa enquanto ele saía.

Frequentemente, esse alguém era Henderson. Deslocava-se para a direita, protegia o espaço abandonado, oferecia cobertura e sustentava a circulação da bola. Trent podia fazer coisas que Henderson não fazia. Henderson fazia coisas que permitiam a Trent ser Trent.

Vejo uma beleza particular nessa relação. O talento de um se manifesta nos gestos que todos conseguem enxergar; o do outro, nas condições que cria para que esses gestos aconteçam.

Talvez por isso tenha sido tão importante para Klopp.

E talvez por isso, tantos anos depois, Xabi Alonso tenha pedido sua contratação ao Chelsea.

Jordan Henderson comemora um gol pelo Chelsea ao lado dos companheiros durante a vitória por 5 a 1 sobre o Bournemouth, pela Premier League.
Jordan Henderson celebra com os companheiros após marcar pelo Chelsea na vitória por 5 a 1 sobre o Bournemouth. (Foto: Adam Davy/ Getty Images)

O elenco dos Blues é jovem, talentoso e cheio de jogadores decisivos, mas ainda procura a melhor maneira de funcionar como equipe. Alonso queria experiência e liderança, certamente, mas também precisava de equilíbrio tático. Experimentou de tudo ali no meio-campo, sem encontrar muito bem aquilo que procurava.

Daí apareceu o velhote.

Não surpreende que a contratação de um jogador de 36 anos cause estranhamento em um clube já acostumado a investir na juventude. O curioso, porém, é que o Chelsea buscava justamente as qualidades sobre as quais Henderson havia construído toda a sua carreira.

Não disputava uma partida competitiva havia quase 80 dias, afastado dos gramados por uma lesão sofrida durante a Copa do Mundo. Ainda assim, disputou todos os 180 minutos de suas duas primeiras partidas vestindo azul. Inacreditável. Não economizou corridas nem se escondeu atrás da experiência para administrar o esforço. Participou da construção, protegeu espaços, ofereceu coberturas e orientou os companheiros. Se fosse possível transformar palavras em mapas de calor, suspeito que as de Henderson também apareceriam espalhadas por todo o campo. Ele fala o tempo inteiro. Aponta, chama, corrige, incentiva. Parece incapaz de assistir ao jogo de dentro dele.

Henderson não rouba minutos em campo. Não dá migué.

Mês passado, após a derrota para o Brentford, fiquei pensando se ele poderia ser a peça que faltava ao Chelsea. Confesso aqui minha parcialidade, sem problema. É importante que o leitor entenda, se é que ainda não deixei claro, que nunca compreendi a facilidade com que seu nome desaparecia das conversas sobre o Liverpool — fossem elas de bar ou de televisão. Coisa de fã.

Agora que comprometi minha credibilidade com a confissão, peço um último voto de confiança: minha hipótese sobre Henderson não era de todo sem fundamento futebolístico. É que o Chelsea possuía jogadores capazes de fazer coisas extraordinárias, e talvez precisasse de alguém extraordinariamente bom em permitir que elas acontecessem.

No sábado, Henderson resolveu oferecer alguns argumentos a favor da crônica — já um tanto redundante, reconheço, e cada vez mais próxima do fim —, mas escolheu os mais improváveis.

Marcou dois gols, deu uma assistência e foi eleito o melhor da partida na vitória por 5 a 1 sobre o Bournemouth. Para colocar as coisas em perspectiva: a última vez que o jogador marcou duas vezes na mesma partida foi em fevereiro de 2014, contra o Swansea, quando Luis Suárez ainda jogava no Liverpool e Steven Gerrard era o capitão dos Reds. Henderson tinha 23 anos.

Foi uma inconveniência.

Justamente quando pretendia escrever sobre a beleza de suas virtudes discretas, o experiente meio campista resolveu ser protagonista de uma goleada. Dois golaços, sendo um de falta, como se estivesse particularmente interessado em dificultar meu trabalho.

Foi uma tarde romântica para o futebol. Não apenas pelos gols, mas pelo personagem que os marcou.

E foi aí que percebi meu equívoco.

Quando Henderson chegou ao Chelsea, imaginei um veterano que, depois de conquistar quase tudo, encontrava mais uma oportunidade de contribuir. Alguém que emprestaria sua experiência aos calouros, a uma geração ainda à procura de seus grandes títulos. Uma espécie de último capítulo, não menos terno, de uma biografia fabulosa.

Só que fui pego no contrapé.

Pois a verdade é que, com os trinta já ensaiando a despedida, o cachorro velho não parece interessado em representar o passado de coisa alguma. Joga noventa minutos, trabalha por todo o campo e, pelo visto, ainda não parou de aprender novos truques.

Eu, que passei tantos anos incomodado com a maneira que subestimavam Jordan Henderson, também havia encontrado a minha de subestimá-lo. Estava envelhecendo o jogador antes da hora.

Talvez tenha me precipitado ao falar em inverno.

Olhando daqui, pode ser que ainda seja outono.

Davi Mendonça

Jornalista esportivo, com formação também em Gestão Esportiva, escrevo sobre o Chelsea e as histórias que cabem dentro de um jogo de futebol. Me interesso pelos personagens, pela memória e pelos pequenos detalhes que ajudam a contar um clube para além do placar. Acompanho os Blues dentro e fora das quatro linhas.

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